Sábado, 7 de Janeiro de 2006

Incerto parte XII


Lembro-me daquela manhã de janeiro, fora chamado há minha editora para tratar dos últimos pormenores, pedi que viessem a minha casa mas era-lhes impossível, não a queria deixar nos últimos dias sozinha, queria estar sempre lá, mas a editora estava impaciente, tinham adorado o livro e queriam publicá-lo o mais depressa possível, contrariado lá fui, foi chegar, e dizer sim a tudo o que mostravam, queria despachar aquilo, só pensava nela sozinha em casa e isso dilacerava-me a alma. O mais depressa que pude, coloquei-me em casa, ao chegar há porta encontrei-a aberta, pensei que ela já tivesse ido para a maternidade, passei pela sala em busca de algo que me disse-se onde estava, entrei na cozinha e vi-a, deitada no chão, virada para cima, à volta dela apenas sangue, soltei um grito de raiva que deve ter ecoado por todo o edifício, o seu ventre estava aberto, ao lado do seu corpo, estava o de uma criança, o cordão umbilical ainda a ligava há mãe, era uma menina, mas nada me interessava, a policia entrou naquela divisão, ainda estava eu metido naquela poça de sangue, estava ajoelhado, coloquei a sua cabeça sobre os meus joelhos e estava a afagar os seus cabelos negros, sobre o corpo dela colocara a criança, a nossa filha, fruto de um belo amor, mas que de forma hedionda nos haviam tirado, chorava ainda quando um policia em estado de choque com o que vira me tentava separar-me dos corpos de quem mais amara, outro policia, vomitava ao canto da sala, eu, devia ter morrido também, a minha alma abandonara-me, apenas a raiva me sustentava vivo, num estado de talvez mais morto vivo do que qualquer outro estado de vivência.

Durante todos os meses que se seguiram apenas três palavras dissera, “Vais morrer, cabrão!”, a policia achara um bilhete escrito a sangue e assinado pelo ex-marido dela, que dizia, “Se eu não a pude ter, tu também não a terás!”, mas desaparecera, e a policia em vão o procurava, decidi perder a confiança na policia e procurar por mim próprio aquele cabrão, iria matá-lo iria fazer descansar a alma delas, vingá-las. Comecei a seguir pistas, gastei tudo o que tinha, subornos, detectives privados, viagens, corri Portugal e Espanha, até que o encontrei exactamente oito anos depois, estava nas últimas, o tumor ganhava-me a cada dia que passava, parecia que até ele me queria impedir o que ansiava fazer, mas não veio a tempo para tal.

Março do ano 2016, segui uma indicação de um ex-policia, agora um detective privado, que me tinha indicado um homem muito parecido com a minha descrição que trabalhava num ginásio da Amadora, mais propriamente dentro do Centro Comercial Babilónia, e quando entrei no ginásio, lá estava ele, tinha como nome agora o de Jorge Estrela, mas aquelas feições eram sobejamente minhas conhecidas, quando cheguei bem perto, senti que me havia também reconhecido e tentou fugir, mas não lhe dei tempo, saquei da arma e disparei contra a sua perna o que o fez cair, aproximei-me apenas para o poder olhar de cima, em pânico no chão suplicava pela vida, pedia desculpas parvas que não iria ouvir, nem queria aceitar, esperara oito anos por isto vira-o e revira-o na minha cabeça, mas não é fácil matar alguém, não é fácil tirar a vida a alguém, mas tinha de o fazer por elas, as outras pessoas que estavam no ginásio circundavam-me na vã tentativa de me impedir de atingir o meu propósito, mas não o conseguiram, num momento de fúria extrema, disparei mais uma vez a pistola acertando-lhe no baixo ventre, ouvi-o gritar de dor e suplicar pela sua miserável vida, gritei enquanto disparava mais uma vez, “Esta é pela filha que me impedistes de ter” e acertei-lhe no estômago, depois e já com mais pessoas há minha volta, um tentou tirar-me a pistola atirando-se a mim, mas desta vez disparei sobre a sua garganta, apesar de me terem agarrado nesse mesmo momento, vi-o enquanto os seus últimos segundos de vida se evaporavam do seu corpo deixando só aquele nojento invólucro que tanto me havia tirado, de joelhos no chão ri que nem um louco enquanto gritava o nome de Daniela e só dizia, “Descansa em paz meu amor, descansa em paz, agora!” e entre essas palavras e esses risos desvairados senti o aliviar da pressão que faziam sobre mim, permitindo que eu me escapasse, e corre-se para o meu carro.

Para quem lê isto agora saiba que parti feliz, saiba que parti por saber que vou ter com ambas as duas, que me esperam no além, já lhes sinto o aroma, consigo já ver os seus sorrisos, como está grande a minha Silvia. E agora vou voar, dizem que se consegue voar por um bom bocado se saltar-mos da Ponte sobre o Tejo.

FIM

publicado por Pinheirinho às 22:05
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