Quinta-feira, 23 de Março de 2006

Será isto a morte?

Sentado numa rocha húmida e áspera, contemplando uma praia de areias enegrecidas, de ondas de uma água de tal forma gelada que criam uma pequena névoa que me enregela os ossos, as ondas rebentam na areia deixando detritos na mesma que depressa são devorados por um bando de gaivotas putrefactas, o bando devora os detritos trazidos pelas ondas e comem também as suas carnes podres que ao caírem ao chão são logo alvo de um festim, são tantas que ao passarem a voar de um lado para o outro toldam toda a minha visão, como se de repente uma névoa escura descesse sobre os meus olhos, mas quando pousam para o seu festim consigo ver o horizonte onde um barco de escurecidas e podres madeiras vagueia suavemente, sem pressa, ao sabor do mar vindo na minha direcção, ao leme um ser de formas humanas, vestido com uma estranha vestimenta com capuz rota e esfarrapada pelo tempo, pela abertura do capuz apenas se notam uns olhos brancos sem vida mas que me observam como que fixos, como os olhos de um arqueiro fixando o alvo.
Olho para trás de mim e vejo uma multidão enorme de pessoas que buscam um caminho que os leve de volte à praia, estão como as gaivotas, os níveis de decomposição estão acelerados, alguns deles têm já os ossos à mostra, mas apesar de eu os ver eles não me vêm, estão como que presos contra uma barreira invisível, um duplo espelho talvez, ou mais uma coisa maluca deste sitio que não sei qual é, nem como aqui vim parar, ao longe vejo também uma porta que de certeza me levará para o mesmo sitio onde toda aquela gente se encontra e por isso decido continuar sentado e esperar o barqueiro.
O som baque do barco a chegar à areia desperta-me dos meus pensamentos, o som de umas botas pesadas caminhando sobre o rebentamento das ondas fazem-me abrir os olhos e ver aquele monstro, para humano é demasiado alto, os olhos brancos sem vida olham-me numa face que apenas tem olhos, em duas cavidades oculares completamente metidas para dentro sem nariz ou boca, apenas uma face lisa com dois enormes olhos como faróis, ele para e estende-me a mão, fazendo-me o sinal de que suba para a barcaça.
Hesito primeiro, mas depois noto que ou barcaça ou aquela porta, aceno com a cabeça a agradecer e sigo para a barcaça.
Ao tocar na água todo o meu corpo gela, pelo que subo depressa para o barco, o som daquela forma inumana diz-me que ele está mesmo atrás de mim, sobe para o barco e batendo as mãos o sentido das ondas muda e o barco vagueia ao saber das ondas para a outra margem, conforme nos aproximamos a neblina desce o que me permite ver uma praia idêntica à outra apenas diferente nas formas, as gaivotas aqui não estão decrépitas, a areia é dourada e as pessoas caminham na praia perfeitas e imaculadas, um sorriso coloca-se nos meus lábios, depois de uma vida de merda uma recompensa que à muito tinha direito.
Um som de palmas ecoa nos meus ouvidos e de novo as ondas mudam de sentido empurrando-me agora para uma nova zona, tento sair do barco mas ao tocar a água com a mão sinto como se pusesse a mão sobre uma poça de ácido sulfúrico olho a minha mão e vejo os ossos através de um buraco na carne na palma da mão, a voz de um sorrir sarcástico abafa os meus gritos de dor e o barco navega suavemente mar abaixo para um sitio que não vislumbro, o desconhecido está à minha frente.

publicado por Pinheirinho às 19:58
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