Quinta-feira, 14 de Abril de 2005

Incerto Parte I

De hoje a exactamente cinco longos anos, estou sentado na mesa do costume, no habitual sitio onde decido estar calmamente a beber um café e a escrever alguns pensamentos no portátil, é um daqueles dias em que tudo o que sai tem o caminho do lixo, o desespero instala-se o café está quase no fim e o dia esse ainda a meio.

Sou rapidamente despertado por uma voz do passado vinda do balcão, “Era um batido de banana e uma tosta mista, se faz favor!”, aquela doce voz que mais parecia veludo a passar pelos meus tímpanos, despertou memórias antigas, antigas paixões, só podia ser ela, quem mais? Olhei de forma escondida para os variados espelhos que ficam de frente para quem está ao balcão, vi aqueles olhos esverdeados que há anos não tinha o prazer de ver, a pele branca, e a maneira como corou quando o empregado deixou escapar uma piada para um dos outros clientes.

Via dirigir-se para uma mesa ao canto da sala e sentar-se de costas para mim, pensei vezes e vezes sem conta se lá devia de ir ou não, afinal de contas eram cinco anos sem a ver, muito tempo sem ter o prazer de ver o meu sol, era assim que dizia que ela era, um sol. Levantei-me, desloquei-me lenta e compassadamente, ao chegar bem perto reparei na aliança que ela envergava, fiquei com duvidas de lhe falar, para quê? Mas por outro lado, porque não? Sorrateiramente aproximei-me do seu ouvido direito e perguntei.

- Quem é o sortudo?

Ela virou-se, ficando a olhar-me quase que de esguelha, mas reconhecendo-me, sorriu e deixou escapar entre sorrisos, um.

- Diz antes! Quem é a azarada? Porque essa conheces.

- Azarada? É assim tão mau?

- Não, não é mau, para alguns não deve de ser, para mim é e muito, fazemos escolhas e
achamos que as fizemos bem, mas quando percebes que se calhar estavas errado e

talvez devesse-mos pensar um pouco mais no futuro e não tanto no presente, a escolha seria sempre outra, mas o que foi, foi e agora já nada interessa.

- Como não interessa? interessa sempre, enquanto esta máquina a que chamamos coração se mantiver a bater, interessará sempre.

- Belas palavras para quem a vida é um computador e um café.

- É o que se têm quando a nossa escolha se mantêm, mesmo que a escolha de outra nos leve a pensar que não vale a pena mante-la. Eu sou e serei persistente, tal qual a rocha no caminho das água bravas do oceano, um dia a rocha se gastará e dela nada resta, é como nós, um dia estaremos gastos de mais, mas ao encontrar-mos a rocha ela há de perguntar, “Valeu a pena, essa longa espera?” e nós com toda a nossa sabedoria havemos de responder, “vale sempre a pena, nem que seja só pelo tentar, se não o fizer-mos como saberemos se vale ou não a pena!”.

- E valeu?

- Claro, se eu não tivesse esperado, agora não estaria aqui, a olhar para o mais belo olhar que os meus pobres olhos tiveram o prazer de ver, se eu fosse religioso diria que estou a ver um anjo, se pelo contrário fosse marinheiro diria que é uma sereia, mas sou apenas eu, um pobre coitado que acha que é escritor, por isso direi que estou perante a minha musa.

- Para com isso! não sou nada dessas coisas, sou apenas uma mulher mal casada, um humano com os seus defeitos e muitas poucas virtudes.

- Aos teus olhos, talvez, aos meus não.

- Mas tu sempre vistes as coisas como se tudo fosse um sonho, tudo para ti sempre foi de extremos, ou era preto ou branco, nunca nada estava no meio, nada para ti é cinzento.

- Queres que minta? E que diga que és feia, só para te deixar feliz? Que tal uma sondagem? A democracia têm os seus defeitos mas a escolha de muitos sempre deram os resultados certos.

- Pronto, está bem, desisto.

- Desistes? Assim? Espera onde vais? Vêm ai o teu pedido? espera?

- Bebe-o tu!

E rapidamente sem que nada eu pudesse fazer saiu porta fora, olhei cabisbaixo para a mesa, entrelacei os dedos e levei as mão à testa, abri os olhos e vi que a mala dela ficara ali, na cadeira do lado, “Tenho de a apanhar, tenho de a devolver”, Peguei na mala, coloquei o portátil debaixo do braço, deixei cair uns Euros para o balcão pelo café, o batido e a tosta mista e saí a toda a velocidade a ver se ainda a apanhava, mas ao transpor a porta fui abalroado por um comboio de gente que me fez voltar a entrar no café, sentei-me, olhei em redor, peguei em tudo e fui para casa, “Em casa vou ver na mala dela se tem uma morada ou outro modo de a encontrar”.

publicado por Pinheirinho às 18:03
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