Segunda-feira, 11 de Julho de 2005

Incerto Parte VII

Faz hoje exactamente três meses que não a vejo, sinto ainda o seu perfume, fecho os olhos e imagino que estou com ela ainda no calor do meu quarto, mas ao abril os olhos para a realidade apenas veja um portátil sobre a mesa, uma chávena de café vazia ao lado, um sem numero de pedidos de clientes ao balcão, o corrupio de empregados do outro lado do mesmo e ele, sempre ele, parado do outro lado da rua, cigarro aceso encostado a um carro de frente para a montra, de frente para mim, sempre esperando que ela apareça também, quando não era ele, era um carro azul com um daqueles detectives particulares, este era bem gordo, e dava bastante nas vistas, apesar disso estava sempre a comer e por diversas vezes entrou no café para saciar a fome.
Há dias estava com tanta fome que decidiu entrar para comer qualquer coisa, eu esperei que ele fizesse o seu pedido, pensei para mim mesmo,
“Desta não me escapas.”

“Óh, chefe, era um prego e uma imperial.”
pediu ele gritando de uma mesa bem perto da porta, passado alguns minutos o jovem empregado saiu de trás do balcão com o seu prego na mão e uma imperial, fechei o portátil, coloquei-o debaixo do braço, larguei um euro sobre a mesa e corri para a porta, passei para o outro lado da rua a correr e vi-o ser parado pelos empregados quando tentou sair sem pagar, entrei no talho do senhor Gerónimo e pedi-lhe que me deixa-se sair pelos fundos, ao que ele aceitou, largando um comentário zombeteiro para um dos empregados,
“Problemas de saías miúdo, só pode!”,
nem sabe ele o quanto estava certo, pensei eu ao sair pela porta dos fundos, depois em vez de ir para casa porque sabia que era para lá que o gordo detective ia, decidi antes alugar um quarto na pensão “Estrela de Alva”, escolhi um dos quartos com vista para a rua do café, desloquei uma pequena secretária no quarto para junto da janela, e passei dois dias a escrever, controlando o movimento do carro do detective que deve ter feito várias voltas entre o dito café e a minha casa a ver se me apanhavam pelo caminho, assisti ainda a uma bela discussão em plena rua entre o mesmo gordo detective e o marido dela, um tal de Zé Carlos, visto daqui o homem é alto e forte, deve fazer da musculação um hobbi, enquanto discutiam fui apanhando algumas palavras soltas que iam gritando,
“Mas como o fostes perder?”,
“Se tinhas fome, compravas comida antes de vir para cá!”,
“És um azelha! Um gordo idiota, três meses e nem uma única noticia dela, estou a pagar-te para nada.”,
as palavras do detective eram ditas com calma e por isso não o ouvia, mas o
“Estás despedido!”,
esse toda a gente ouviu, vi o pobre homem que não fazia mais do que o seu trabalho, sair cabisbaixo do local e entrar no carro, arrancou, parou no meio da rua, e gritou um,
“E mesmo se a visse não te dizia nada, és uma besta de merda!”,
arrancou logo de seguida deixando o tal, Zé Carlos, a barafustar no meio da rua, eu ria-me o mais que podia e pelos sons que vinham da rua não era o único.

Mas desde esse dia só o marido dela estava por aqui, o homem não devia de fazer nada na vida, eu ao menos ganho o suficiente para viver da escrita, agora ele deve ganhar do quê? Bem isso a mim não me interessa só sei que com ele por aqui ela não mais aparece, desliguei o portátil, saí do quarto, desci as estreitas escadas e paguei a conta, desta vez fiz o caminho contrário. entrei pelos fundos do Talho e sai pela porta da frente, para não dar a entender onde tinha estado, depois fiz todo o meu caminho sendo seguido pelas ruas, “Que carraça!”, pensei, abri a porta do prédio e certifiquei-me que ficava fechada, depois em vez de seguir para a minha casa, fui antes para a arrecadação, lá ligaria a musica e não ouviria mais nada, a sala é insonorizada porque gosto de ficar fechado nesse meu pequeno mundo, ali tenho CDs e livros o meu velho PC e outras recordações de tempos passados, ali ninguém me chateia, entrei na pequena sala, acendi as luzes e vi-a sentada na cadeira de massagem a dormir, se um anjo dormisse, era assim que o faria, estava deitada de lado na cadeira, a mesma estava recostada ao máximo para trás, ela estava de pernas flectidas o corpo enrolado e ambas as mão estavam a servir de almofada, desviei alguns livros do caminho, sentei-me de costas para a parede de CDs, reduzi a luz para o mínimo e fiquei em silêncio a vê-la ali a dormir como um anjo, o meu anjo.

publicado por Pinheirinho às 23:34
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