Quarta-feira, 31 de Agosto de 2005

Incerto Parte IX

Não sei ao certo que dia é hoje, só sei que este é o terceiro dia em que me encontro acordado, três dias passados, deitado numa cama de hospital, ela têm estado há minha cabeceira, ainda só trocámos quatro frases entre ambos, um, “Olá!”, quando acordei e um, “Desculpa!”, entre choros da parte dela e um beijo na minha testa, da minha parte apenas saem grunhidos o maxilar ficou em muito mal estado e não consigo abrir a boca o suficiente devido ás ligaduras que ainda tenho, mas claro que a desculpo, a culpa não é dela, eu é que me armei em herói, pensava eu que o podia arrumar com uma cabeçada no estômago, com isso ganhei uma valente tareia, cerca de mês e uns trocos de coma, algumas mazelas para a posteridade e um anjo há minha cabeceira, mesmo que passe os dias em que estou acordado com várias lágrimas nos olhos, mesmo assim é um anjo.

Segundo me foi contado pelo médico, quando recuperei os sentidos, ganhei várias hemorragias internas, um maxilar partido, depois pediu permissão sobre o que ia dizer olhando para a Daniela, ao qual ela assentiu com um baixar de cabeça, o Médico então lá continuou dizendo que ao fazer-me um T.A.C. foi detectado um tumor, para o qual não têm cura, talvez seja isso que a deixe tão abalada, talvez porque o médico ainda disse que a porrada só piorou as coisas, mas eu apertei a mão dela e levei-a aos meus lábios inchados, beijei-a e olhei-a nos olhos tentando dizer-lhe que a culpa não é dela, espero que ela tenha percebido isso mas quando conseguir articular algumas palavras vou dizer-lho.

Durante o coma, sonhei, devo ter sonhado, lembro-me de imagens retalhadas, pessoas que falavam comigo e ela sempre ela, há minha cabeceira, queria sair desse estado meio a dormir e agarra-la, beijá-la, tela nos meus braços, ter de novo o meu corpo junto ao dela, sentir o seu calor, a sua respiração, sentir o cheiro dos seus cabelos, ver o seu sorriso, ver os seus olhos brilhando de felicidade, mas isso só via em sonhos agora, os momentos retalhados, segundos de consciência talvez, apenas palavras e choros e o sentir da sua mão a apertar a minha, queria tanto dizer-lhe que parasse de chorar que estava tudo bem, mas as palavras saiam para dentro, só eu as ouvia como a um eco distante.

Fui interrompido dos meus pensamentos quando a enfermeira Carla transpôs a porta do quarto.

– Bom dia, Sr. Cardoso!
Tentei dizer-lhe para não me chamar de Sr. Cardoso que isso me faz velho, mas lá me saiu mais um estranho grunhido.
– Vá, Sente-se lá que é hora do pequeno almoço e é para comer, depois vêm ai o Dr. Cabreira tirar-lhe as ligaduras para ver se já começa a dizer qualquer coisa, assim já pode agradecer o que faço por si. – foi dizendo ela enquanto que me sentava na cama com a ajuda da Daniela, e colocava a bandeja com a tigela de leite do costume, que sabia a tudo menos leite mas ao qual me tinha de sujeitar já que não conseguia mastigar.

Mais uma vez lá fui bebendo aquela mistela contrariado, apesar de o meu pobre estômago ainda se estar a habituar à comida, ainda a tigela ia a meio quando o Dr. Cabreira entrou no quarto, ficou a olhar enquanto bebia, engasguei-me ao tentar beber aquela mistela o mais depressa que podia para ver se o suplicio de ter de o fazer acabava, felizmente resultou e tiraram-me a palhinha da boca, quando o Médico se aproximou e pegando na bandeja e tigela e olhando para mim me disse.

– Já chega, não acha? Heim, Não diz nada é? Deixe-me tirar-lhe estas ligaduras a ver se já consegue dizer alguma coisa! – enquanto falava cortava as ligaduras na zona do queixo, fazendo uma tremenda impressão ao descolarem devido à rala barba que fazia questão de se agarrar ás mesmas, foi tirando-as levemente, colocou uma das mão no meu queixo empurrando-o para cima.

– Agora devagar, tente abrir a boca, mas devagar homem, não tenha pressa.

Assim o fiz sentindo um estalar de vários ossos na boca como que felizes por voltarem a mexer, seguidos pelos sons de alguns músculos que seguiram os ossos numa estranha sinfonia, voltei a fechar a boca lentamente, voltando a abrir e novamente a fechar e quando a abri outra vez foi para soltar um obrigado, e agarrando na mão da Daniela e olhando para os olhos dela formulei o meu primeiro sorriso em muito tempo ao qual ela retribuiu limpando as lágrimas dos seus olhos e fungando de alegria.

publicado por Pinheirinho às 22:31
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